Homenageados
Jorge Bodanzky
Em 1964, um estudante de arquitetura da UNB, partiu para a Alemanha para estudar fotografia na Universidade de Ulm. Voltando ao país em 1968, agora como fotógrafo, participa de vários filmes e documentários tornando-se um dos mais emblemáticos diretores de fotografia do cinema marginal paulista da década de 70. Rapidamente torna-se fotógrafo da revista Realidade e parte para a Amazônia. A construção da Transamazônica, os problemas fundiários da região, o desmatamento, as queimadas, e o aumento da miséria e da prostituição foram alguns fatos registrados durante a viagem. Eis que a luz da selva revela um cineasta de espirito viajante, que a partir desse momento passa a aventurar-se por expedições pelo Brasil, pela América do Sul, pela Alemanha, Jamaica e até Antártida.
O contato com a Amazônia foi transformador na vida de Jorge Bodanzky. Observando o cotidiano da região, em 1974, Jorge com a ajuda do co-diretor Orlando Senna – criou um novo tipo de filme. Era uma contundente mistura de documentário e ficção, um road-movie rodado na Amazônia, em 16 mm, com equipe mínima e som direto e Paulo César Pereio improvisando e interagindo com a população da região e com atores amadores .
Surgia um dos grandes marcos do cinema nacional: “ Iracema, uma Transa Amazônica”. Feito em plena ditadura militar, essa co-produção com a TV alemã só foi liberada pela censura e exibida comercialmente no Brasil em 1981, após uma vitoriosa carreira em festivais internacionais onde foi considerado o melhor filme em exibição na Europa em 1975 e vencedor de vários importantes prêmios no mundo.
Com o parceiro, Wolf Gauer que conheceu na Universidade de Ulm, fez Os Mucker e Jari. Foi também câmera de cinejornais
e diretor de fotografia de filmes importantes como O Profeta da Fome, de Capovilla, e Compasso de Espera, de Antunes Filho. Bodanzky é um dos pioneiros no Brasil em trabalhar a ficção nos limites do documentário, tendo entres alguns dos destaques o documentário sobre o projeto Jari e um filme com o senador amazonense Evandro Carreira, chamado “Terceiro
Milênio”. Nos últimos anos, Bodanzky trabalhou como cinegrafista para correspondentes da TV alemã, rodando documentários sobre questões sociais, e ao desenvolvimento de CD-ROMs e sites para a internet, a maioria ligados à questão ecológica em um laboratório multimídia dentro de um barco onde percorreu a região amazônica com o projeto TV Navegar.
Os trabalhos de Bodanzky ficaram muito tempo desconhecidos do público brasileiro. Muitos documentários dirigidos por ele só
foram exibidos no exterior. “Meus filmes são sempre uma aventura. Faz parte do meu jeito de ser”, costuma declara o diretor. O Cinema Nacional Agradece!
Dom Pedro Casaldáliga
Filho de lavrador leiteiro, religioso da Congregação dos Missionários Claretianos, Pedro Casaldáliga nasceu em 16 de fevereiro de 1928, em Balsareny -Barcelona, Catalunha, Espanha.
De sua ordenação como sacerdote em Montjuic –Barcelona- em de maio de 1952, passando pela chegada ao Brasil em 1968 até seu encontro com o Estado de Mato Grosso e, por conseguinte sua ordenação como Bispo de São Félix do Araguaia em 1971, foram 19 anos de árduas lutas.
Durante o tempo que viveu na Espanha trabalhou pastoralmente como diretor de seminário e de organizações juvenis. Foi professor, trabalhou em Pastoral de subúrbios, Dirigiu a revista Iris em Madri, e escreveu para jornais, revistas, rádio, teatro. Foi assessor Nacional de Cursilhos de Cristandade e fundou os Cursilhos na África.
Já no Brasil foi co-fundador do CIMI e da CPT. Adepto da teologia da libertação, adotou como lema para sua atividade pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras. Escreveu mais de 30 volumes em catalão, castelhano e português, em prosa e em verso, vários deles traduzidos a diferentes idiomas. Escreveu a “Missa da Terra Sem Males” e a “Missa dos Quilombos” musicada por Milton Nascimento.
Dom Pedro já foi alvo de inúmeras ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bonito (Mato Grosso). Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erguida uma igreja. Essa história recentemente foi resgatada pelo jornalista e documentarista Rodrigo Vargas, na obra “A Cruz do Padre João”.
Por sua Pastoral comprometida com os Direitos Humanos e concretamente na Causa Indígena e na problemática da Terra, foi e continua sendo ameaçado de morte. Durante a Ditadura Militar, várias foram as tentativas de expulsá-lo do Brasil. Destacou-se também em Campanhas de Solidariedade, sobretudo com os países da América Central. Recebeu muitos títulos e prêmios do Brasil, Espanha e de outros países. Em 1992 foi proposto como Nobel da Paz.
As várias causas dessas diferentes lutas dos Direitos Humanos, da Justiça e da Libertação, para Dom Pedro são causas do Reino de Deus, Paixão de Jesus de Nazaré. Em 2000, foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas e em 2005 renunciou à Prelazia em conformidade ao Can. 401 §1 do Código de Direito Canônico, hoje aos 83 anos, desses 43 anos vividos no solo do Araguaia matogrossense ele repete sempre: “Minhas causas valem mais que a minha vida”.










